Rachel Carson

Rachel Louise Carson nasceu em 27 de maio de 1907, em Springdale, na Pensilvânia (EUA). Ela era a filha caçula da família, tinha uma irmã, Marian, e um irmão, Robert. O pai de Rachel viajava a trabalho constantemente, ficando mais ausente da sua criação. Já sua mãe, Maria, teve acesso a uma boa educação, foi musicista e cantora e antes do casamento também foi professora.

A família de Rachel Carson não tinha muito dinheiro, tanto que não tinham acesso a eletricidade e água encanada, mas a sua casa ficava num grande terreno com muitas áreas silvestres. Maria incentivava Rachel a explorar a Natureza. Também com o incentivo de sua mãe, Rachel Carson lia bastante e começou a escrever histórias aos 8 anos. Aos 10 anos, publicou sua primeira história em uma revista voltada para crianças e já esperava se tornar uma escritora.

Em 1925, Carson se formou no ensino médio como a primeira da turma. Era uma aluna quieta e aplicada. Sua mãe se esforçou para garantir que ela pudesse ir à faculdade. Venderam até as louças de porcelana para conseguir pagar os custos. Carson ingressou na Faculdade da Pensilvânia para Mulheres para estudar Língua Inglesa (Letras), mas acabou se apaixonando por Biologia. Entrar em contato com a ciência que estuda a Natureza tocou seu coração, talvez pela vivência nos bosques de sua infância. Ela chegou a ser aceita para a Universidade de Johns Hopkins, mas por falta de dinheiro não pode ir. Ela se formou na Faculdade com honras em 1929, bem no ano em que começou a Grande Depressão que só foi superada uma década depois.

Após a conclusão da faculdade, Carson fez um curso de verão em biologia marinha pela Universidade de Chicago e durante o curso ela viu o Oceano pela primeira vez nos seus 22 anos de vida. Carson ficou completamente admirada. Encarar o Oceano fez ela experimentar uma forte sensação de como tudo está conectado, toda a Natureza o que inclui nós. Eu acho essa umas das sensações mais gostosas de ir ao mar. Ela começou sua pós graduação em Johns Hopkins estudando genética e zoologia, após um ano começou a trabalhar como assistente no laboratório do Prof. Raymond Pearl para conseguir dinheiro para pagar suas mensalidades. Já agradeceu hoje por ainda termos pós-graduações de qualidade e gratuitas nas universidades públicas? Sua dissertação foi sobre o desenvolvimento embrionário do pronefro, que é o rim primitivo que ocorre nos embriões dos vertebrados.

Carson estava disposta a obter o título de Doutora, mas em 1934 dificuldades financeiras de sua família fizeram ela deixar a pesquisa para trabalhar como professora. No ano seguinte seu pai faleceu subitamente, tornando Rachel aos 28 anos a única provedora da família que incluía sua mãe e sua irmã com duas filhas. 

A necessidade de manter sua família fez Carson trabalhar como temporária no Departamento de Pesca, um órgão federal. Nesse posto, Carson escreveu roteiros para programas de rádio que semanalmente abordavam o trabalho do departamento com objetivo de gerar interesse público sobre a vida aquática e o trabalho do órgão federal. A série se chamava Romance Under the Waters, uma tradução seria “Romance sob as Águas”. Até eu fiquei interessada em ouvir, será que está disponível em algum lugar? Durante a criação desses roteiros, ela percebeu que tinham coisas muito interessantes que poderiam se tornar reportagens especiais. Carson começou a enviar textos para jornais da região, o que também ajudou a complementar sua renda.

Ter um trabalho em tempo integral tirou Carson da dedicação à vida acadêmica, mas acabou sendo uma oportunidade para conectar suas duas grandes paixões: a biologia e a escrita. O chefe de Carson ficou tão satisfeito com o trabalho dela que pediu que ela escrevesse a introdução de uma publicação do departamento voltado para o público em geral e lhe assegurou uma vaga de trabalho permanente. Em 1936, quando houve o concurso para a vaga, Carson superou todos na prova e se tornou a segunda mulher contratada de forma permanente no departamento, como assistente em biologia marinha.

No seu trabalho, Carson analisava os relatórios com dados de campo sobre as populações de peixes e escrevia publicações sobre o departamento para o público. Em 1937, a irmã de Carson faleceu deixando suas filhas aos cuidados de Rachel que ainda cuidava de sua mãe. As responsabilidades de Carson não paravam de aumentar.

Em julho de 1937, a revista Atlantic Monthly aceitou um artigo enviado por Carson. Ela o tinha escrito para o Departamento de Pesca, mas seu supervisor disse que era bom demais para o propósito da publicação. Na revista, esse texto chamou a atenção de editores que ofereceram um adiantamento para ela escrever um livro sobre o mar. Essa foi a chance de Carson se dedicar mais a sua escrita, aos 30 anos ela estava finalmente perto de seu sonho de infância: ter uma carreira como escritora.

Foram três anos trabalhando no livro durante suas noites e finais de semana. Enquanto isso ainda trabalhava no Departamento de Pesca que em 1940 havia se tornado “Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos” (SPVS). O livro chamado “Sob o mar-vento” (Under the Sea-Wind) recebeu críticas muito positivas em seu lançamento em 1941, mas não chegou a ser um sucesso de vendas. Algumas semanas após a chegada do seu livro, outro lançamento iria impactar a vida dos norte-americanos: bombas lançadas pelo Japão a navios estadunidenses em Pearl Harbor. Com isso os EUA se envolveram mais intensamente na Segunda Guerra Mundial e o interesse pelos livros acabou diminuindo. Sob o mar-vento não vendeu nem 2 mil cópias e logo sumiu das prateleiras.

Livro Under The Sea-Wind (Sob o mar-vento) de Rachel Carson

Apesar de se destacar no seu trabalho do SPVS, esse não era o trabalho que Carson desejava fazer. Ela pensou em deixar o emprego na agência federal, mas havia poucas oportunidades para naturalistas, os investimentos em ciência e tecnologia estavam voltados para o Projeto Manhattan, que produziu as primeiras bombas atômicas da Segunda Guerra Mundial. [boom] Ao final da guerra, em 1945, Carson voltou a enviar reportagens especiais para veículos de comunicação em paralelo a seu trabalho na agência. Ela estava frustrada com sua situação em que tinha que sustentar sua família e não podia dar as costas ao emprego. Ela era uma aspirante a escritora que não tinha tempo para seu trabalho criativo.

Enquanto isso, uma nova substância sintetizada artificialmente estava se tornando cada vez mais popular. Era o DicloroDifenilTriCloroetano, também chamado de DDT. O DDT foi sintetizado pela primeira vez em 1874, mas só em 1939 o pesquisador Paul Hermann Müller descobriu as propriedades inseticidas dessa substância, o que viria a ser reconhecido com um prêmio Nobel em 1948. Durante a Segunda Guerra Mundial, o uso do DDT protegeu muitas tropas de contrair tifo e malária, doenças transmitidas por insetos. Existem várias imagens de documentários da época mostrando as pessoas recebendo jatos de sprays com DDT nos seus cabelos, direto na pele e até dentro das calças.

A partir de 1945, o DDT se tornou disponível para agricultores, que buscavam controlar as pragas em suas plantações, e também para o cidadão comum, que queria evitar mosquitos e outros insetos em seus lares. Nessa época, Carson propôs uma matéria para a Reader’s Digest para contar sobre os testes que estavam sendo feitos sobre o DDT, mas a revista recusou a pauta.

Carson havia sido promovida dentro do SPVS, se tornando supervisora de uma equipe de escritores. Ela teve mais oportunidades de realizar trabalhos em campo e de escolher quais seriam seus projetos para publicações da agência, porém com isso também vinha mais do tedioso trabalho administrativo. Em 1949, Carson, aos 42 anos, começou a se animar com a ideia de escrever um novo livro sobre o oceano. Ela queria ver o mundo submarino com seus próprios olhos para escrever sobre ele. Um dia ela embarcou para fazer um mergulho na Baía de Biscayne usando um escafandro, que é um tipo antigo de equipamento para mergulho que lembra uma roupa de astronauta. Ela não sabia nadar muito bem e nem ficava muito à vontade em barcos, se pensarmos bem ela só viu o mar pela primeira vez aos 22 anos e boa parte da sua vida adulta foi estudando e/ou trabalhando para manter sua família, ela teve pouco tempo para esportes e hobbies. Mesmo tremendo de nervosismo, Carson conseguiu descer usando a escada do barco até a profundidade de uns 2,5 metros. Ela pode ver o mundo submarino por alguns poucos minutos antes de retornar à superfície.

Um exemplo de escafandro

Carson considerou o mergulho um sucesso, mas chegou a conclusão que seria melhor basear seu livro em estudos oceanográficos do que apostar em novos mergulhos. E o momento era dos melhores para a Oceanografia. Durante a Segunda Guerra Mundial houve um avanço tecnológico na área oceanográfica, já que com o advento das batalhas submarinas era necessário compreender melhor o ambiente marinho. Mesmo com acesso a tantos estudos, o trabalho de Carson não era simples. Ela lia artigos científicos e relatórios técnicos, mas seu livro seria uma obra literária de outro tipo. Carson tinha que traduzir para outra forma de escrita e tinha que o fazer sem causar uma má interpretação de informações científicas e nem deixar a leitura enfadonha para quem lesse. Carson, com ajuda de uma agente literária, vendeu o livro para uma editora antes mesmo que tivesse um título. Em 1950, o manuscrito quase finalizado recebeu o nome de “O mar que nos cerca” (The Sea Around Us). Capítulos foram publicados em revistas, como a The New Yorker, para ajudar na divulgação do livro. Os textos dela viraram uma sensação na revista. Carson chegou a ganhar mais dinheiro com a publicação no The New Yorker do que um ano inteiro de trabalho no SPVS.

Na primavera de 1951, “O mar que nos cerca” foi lançado. Na mesma época o avanço do Bloco Comunista trazia inquietação, conflitos e o medo de uma nova guerra. Carson ficou preocupada de sua obra ser mais uma vez impactada pelos conflitos mundiais, mas a divulgação por meio das revistas garantiu boas vendas, muitas pessoas encontravam no novo livro de Carson uma fuga para as tensões do momento. O livro revelava às pessoas um mundo completamente novo. Se até hoje a maioria de nós sabe pouco sobre o Oceano, nos anos 50 ele era uma completa novidade. Com a narrativa envolvente de Carson quem o lia se sentia imersa naquele mundo estranho. O livro foi aclamado por vários críticos e ficou 32 semanas como o livro de não-ficção mais vendido dos EUA. Aproveitando o sucesso, Carson resolveu republicar seu primeiro livro “Sob o mar-vento”. O livro recebeu muitas críticas positivas e também entrou para a lista de mais vendidos. Carson conseguiu um raríssimo feito para a época de ter dois livros simultaneamente na lista de mais vendidos

Edição brasileira do livro “O mar que nos cerca” (The sea around us)

Junto com o estouro do livro, começaram a sair boatos sobre a autora, diziam que Carson era uma pesquisadora com incríveis dotes literários ou que era uma experiente mergulhadora que havia visto tudo o que estava no livro. Carson apenas ignorou esses boatos e não os desmentiu. Como o sexismo era ainda pior que hoje, muitos duvidavam da capacidade das mulheres pesquisarem, explorarem novos ambientes e escreverem tão bem, talvez ela tenha apenas deixado isso como uma pequena vingança ao machismo que as mulheres tinham que encarar. Afinal Carson aos 44 anos era a ganha-pão de uma família formada apenas por mulheres: ela, sua mãe e suas duas sobrinhas. Se na história de Marta Vannucci que nasceu algumas décadas depois de Carson já havia dificuldades para mulheres independentes, imagine nessa época.

Com uma estabilidade financeira melhor, Carson pode comprar uma casa no litoral de Maine, onde a costa é formada por rochas e quando a maré baixa fica exposto o costão rochoso com algas, poças de maré e vários organismos marinhos. Lá fez amizade com a família Freeman que ficou muito animada ao saber que Carson teria uma casa na região. Eles haviam lido “O mar que nos cerca” e ficaram maravilhados com o livro. Eles tinham o mesmo encanto que Carson pela Natureza e pelo mar. Carson se conectou muito com Dorothy Freeman, tendo com ela uma amizade muito forte pelo resto da vida. Carson e o casal Freeman iam juntos explorar o mundo selvagem próximo de suas casas. O seu canto em Maine também era um refúgio de suas questões familiares.

Rachel Carson acompanhada de Stanley e Dorothy Freeman

Sua convivência com a mãe se tornava cada vez mais desgastante, pois Maria com seus 82 anos se tornava mais exigente da atenção de Carson. Sua sobrinha, Marjorie, que ficava sob seu cuidado, engravidou de um homem casado. Arranjaram que Marjorie ficasse fora da atenção pública até o nascimento de seu filho. Todo esse drama familiar fez com que Carson não aproveitasse tanto o seu sucesso.

Carson se demitiu em 1952 do SPVS e podia usar todo o seu tempo para escrever seu 3º livro, mas não estava sendo fácil… Por meio de cartas para Dorothy, ela contava como estava sendo difícil escrever. A amizade de Carson com Dorothy era muito especial. Carson nunca havia namorado ninguém e sua conexão emocional com Dorothy era como se elas fossem almas gêmeas que se encontraram. Pelas cartas trocadas entre elas há o registro de um amor muito grande. Só que Dorothy já tinha seus 55 anos, era uma dedicada dona-de-casa e esposa de Stanley, com um filho e um neto. Talvez as condições da época ou mesmo as experiências de vida das duas não deixaram que ambas demonstrassem seu carinho pela outra além das cartas, beijos de despedida e de dar as mãos. 

Rachel Carson no litoral rochoso

Carson desejava entregar seu 3º livro em dois anos de trabalho, mas seu processo de escrita estava tão difícil que levou quatro anos para finalizá-lo. Em 1955, ela lançou “A beira do mar” (The Edge of the Sea), dedicado a Dorothy e Stanley Freeman, onde fala da ecologia e da biota da costa atlântica dos EUA. Essa obra foi inspirada pelas caminhadas e observações que Rachel fazia junto com o casal Freeman perto de sua casa em Maine. O livro foi tão bem recebido quanto “O mar que nos cerca”, com várias críticas positivas.

Livro “A beira do mar” (The edge of the sea)

Nesse período o mundo lidava com a Guerra Fria e a disputa entre potências deixou a sociedade em estado de alerta. Testes atômicos foram feitos e as explosões geraram cinzas radioativas (em inglês, nuclear fallout). Pessoas atingidas diretamente por essas cinzas morreram em poucos dias ou tiveram sérios danos à saúde. Começou a ficar claro que além dos danos da explosão em si, o material radioativo resultante trazia problemas mais graves e de longo prazo. Porém os EUA abafaram o caso dizendo que não havia risco das explosões nucleares impactarem pessoas fora da área de testes.

Vítimas das cinzas nuclerares

A sociedade no pós-guerra estava maravilhada com a ciência. Havia um sentimento de que a ciência e a tecnologia fariam a humanidade controlar toda Natureza de acordo com suas necessidades. Mas Carson se preocupava com os perigos dessa mentalidade e com a falta de conhecimento sobre essas novidades. Ela queria jogar luz na sua preocupação com potencial destrutivo dos humanos sobre a Natureza. Esse tema começa a ser abordado em tudo o que ela escrevia. Ela se propôs a escrever um livro que o título seria “Remembrance of Earth” (Lembrança da Terra) para mostrar a relação da vida com a Terra. O livro empacou, ela não conseguia avançar com o projeto, e aí mais um drama familiar surgiu…

Sua sobrinha Marjorie faleceu em 1957 por conta de uma pneumonia e deixando seu filho Roger. Carson o adotou e os cuidados com o filho foram tomando boa parte de seu tempo. Ela acreditava que não teria mais tempo para escrever, ainda mais com o livro emperrado. Então ela soube de um programa governamental para a erradicação das formigas lava-pés e voltou a pensar nos pesticidas.

As formigas lava-pés são originárias da América do Sul e sua voracidade destrói várias plantações. Nos EUA essa formiga é uma espécie invasora que pode ter chegado junto com produtos agrícolas e estava dando muita dor de cabeça para os agricultores. No período da Guerra Fria, destruir essas pequenas invasoras vermelhas tinha mais do que uma conotação ambiental ou agrícola. É gente, o anticomunismo não é de hoje, naquela época nem as formigas podiam ser vermelhas. Destruir as formigas lava-pés seria também mais uma forma de mostrar a superioridade da potência capitalista em produzir mais alimentos.

Formigas Lava Pés (as com asas são rainhas)

Em 1957, o Departamento de Agricultura fez aplicações massivas de pesticidas pulverizando-o com aviões. Logo em seguida, muitos pássaros, peixes e pequenos mamíferos morreram. Reportaram que alguns locais fediam com o apodrecimento da vida selvagem. Isso fez com que essa abordagem para o extermínio das formigas fosse deixada de lado. Para Carson esse evento foi um grande alerta. A sua maior preocupação nem era que os pesticidas tivessem efeitos desconhecidos, mas que substâncias das quais sabíamos tão pouco estavam sendo usadas a torto e a direito sem maiores questionamentos.

Na época, qualquer pessoa podia comprar diretamente algum dentre os 6 mil pesticidas sintéticos disponíveis. O governo não exigia testes independentes sobre a segurança dos pesticidas, nem colocava limitações na venda ou no uso deles. As empresas precisavam apenas colocar instruções para uso seguro na embalagem. Se você tem acompanhado nos últimos anos as discussões sobre agrotóxicos, que é outro termo para pesticidas agrícolas, com certeza você já ouviu frases como essa: que os agrotóxicos são seguros usados na dosagem recomendada indicada na embalagem e basta apenas os agricultores usarem direito. As empresas se preocupavam apenas com a toxicidade aguda, imediata. Os defensores dos pesticidas até aplicavam os produtos em bebidas e ingeriam para mostrar que não havia riscos. Enquanto isso, peixes, aves e outros animais silvestres não paravam de morrer.

Propaganda da época sobre o DDT

Isso fez Carson notar que havia algo de muito errado e levantou a questão de que a ciência não estava fazendo as perguntas certas para lidar com os danos dos pesticidas, a ciência ainda não estava se preocupando com quais eram os riscos a longo prazo desses produtos. 

Quando começou o uso massificado dos pesticidas, a ciência olhou mais atentamente a sua aplicação. Cientistas que trabalhavam com o departamento de agricultura dos EUA e com a indústria química se encarregavam de pesquisar sobre a efetividade dos pesticidas e se eles impactavam a saúde de quem estava aplicando o pesticida. Já cientistas que estudavam a vida selvagem e não estavam vinculados a nenhuma indústria em particular, conseguiam ver evidências de problemas causados por esses produtos.

Carson começou a pesquisar e se deparou com estudos que mostravam que pesticidas como o DDT se acumulavam nos animais que entravam em contato com ele. Por exemplo, se várias minhocas são contaminadas com DDT e uma ave come essas minhocas, a ave vai estar contaminada com a quantidade total de DDT que estava dividida entre as minhocas. O DDT era extremamente tóxico para aves que se alimentassem diariamente de animais contaminados, diminuindo sua expectativa de vida e a sobrevivência de seus filhotes.

Além disso, começava a se notar que os pesticidas deixavam de funcionar tão bem com o tempo. Os animais tidos como pragas se tornavam resistentes aos pesticidas químicos. A maioria morria com os agroquímicos, mas aqueles que sobreviviam à substância cresciam, se reproduziam e logo havia toda uma população que não se importava com o veneno. Os agricultores por sua vez buscavam novos pesticidas químicos ou utilizavam dosagens cada vez maiores. As populações de insetos iam ficando cada vez mais resistentes e os que se alimentavam desse insetos e outros animais contaminados ingeriam doses cada vez maiores de pesticidas. Conforme Carson avançava em sua pesquisa, surgiam diversas evidências de que os pesticidas químicos poderiam causar câncer em humanos e defeitos de nascença.

Reunindo os diversos resultados de pesquisas que Carson analisou, foi ficando claro para ela que havia grandes prejuízos ambientais no uso desses pesticidas além de impactos pouco compreendidos na saúde humana. Para Carson, entender que a vida de todos estava em risco foi a motivação para seu novo livro. 

Sua grande amiga e confidente, Dorothy, não estava confortável com essa escolha. Ela preferia que Carson utilizasse sua escrita excepcional para falar das belezas do mundo e não de morte e destruição. Carson tinha clareza da importância de contar essa história, mesmo concordando com a opinião de sua amiga, ela sabia que não ficaria em paz se não se dedicasse a esse projeto.

Alguns dos títulos provisórios para o livro foram “Homem contra a Terra” e “Homem, o destruidor”. Havia em certa medida uma raiva de Carson devido a todos os problemas causados pela falta de cuidado em relação ao mundo natural, mas ela queria contar a história usando dados científicos e de forma justa. Os dados que ela tinha ainda eram muito recentes, considerando que na ciência as conclusões precisam de um grande volume de estudos, experimentos e discussões para validar de forma consistente as descobertas. Por outro lado, vendo a enorme quantidade de evidências compiladas, ela não poderia apenas ficar quieta.

Uma certa comparação, feita por Carson, entre as cinzas radioativas das explosões nucleares e os pesticidas químicos começava a ficar mais clara: ambos eram espalhados por grandes áreas, estavam ligados a câncer e defeitos no nascimento e as doenças causadas por eles poderiam levar anos para aparecer.

Em 1959, anos após os testes nucleares no Pacífico, começaram a surgir efeitos das cinzas nucleares. Um dos mais conhecidos foi o caso do Estrôncio-90 (S90). Esse é um isótopo (uma variante) do elemento estrôncio que existe naturalmente na Natureza mas a explosão nuclear aumentou muito a quantidade desse isótopo radioativo. O S90 se comporta como o cálcio e “rouba” o lugar dele nas moléculas. Quando ingerido por humanos o estrôncio radioativo se acumula nos ossos e na medula podendo causar câncer, leucemia e defeitos de nascença. Nesse momento o governo dos EUA começou a assumir os problemas causados pelas cinzas radioativas, pois os níveis de S90 estavam mais altos do que nunca e impregnavam a produção leiteira, colocando em risco a população, em especial as crianças.

Também em 1959, agricultores de Oregon aplicaram pesticidas no cultivo de cranberry (também chamada de oxicoco) no momento errado do ciclo de crescimento, deixando as frutas contaminadas. O molho de cranberry é muito usado na ceia de Ação de Graças (Thanksgiving), uma data comemorativa muito especial nos EUA. As vendas da fruta foram fortemente afetadas, prejudicando muitos agricultores, até de outras regiões onde não havia risco de contaminação. Políticos até comeram cranberries diante das câmeras para provar que não havia riscos tentando ajudar a venda da fruta, mas o público estava com medo da contaminação. Essa postura dos políticos deixou mais clara a relação de parceria entre o governo e a indústria, não seria fácil encarar esses dois gigantes.

Jornal da época com uma matéria sobre o “Cranberry Scare”, quando houve a contaminação das cranberries no Oregon

Em 1960, Carson descobriu vários problemas de doença, incluindo um câncer de mama em estágio avançado. Um médico tinha encontrado tumores e recomendou uma mastectomia mas omitiu dela que o tumor era maligno. Naquela época, os diagnósticos e os tratamentos eram discutidos com o marido ou pai de uma paciente mulher. Seis meses depois, Carson notou novos tumores, ela buscou outro médico e soube que o câncer havia se espalhado para seus nódulos linfáticos. Ela optou por não divulgar sua situação, por temer que utilizassem seu diagnóstico para desacreditar sua pesquisa contra os pesticidas. Ela fez tratamento radioterápico, porém isso a deixava sem condições de trabalhar. Ao acabar o tratamento, ela retornou ao trabalho com seu livro, pois ela não queria que mais nada impedisse ou atrasasse sua finalização

No início de 1962, Carson entregou à editora o manuscrito do seu livro que se chamaria “Primavera Silenciosa” (Silent Spring). O silêncio se referia às aves que já não cantavam mais, pois haviam morrido pela ação de pesticidas. Carson contou a história de um ataque dos EUA a si mesmo, com aviões que não lançavam bombas, mas contaminantes que lentamente destruíam a vida selvagem e adoeciam os humanos. O país havia se tornado inerte pelo efeito das guerras e depositou toda a confiança na iniciativa privada e em cientistas alinhados com ela.

Será que Rachel Carson era gateira?

O livro teve fascículos publicados em série em algumas revistas. Antes mesmo da 3ª parte sair, leitores se indignaram com a situação dos pesticidas. Montanhas de cartas foram enviadas aos jornais contando como os textos foram esclarecedores e ao Departamento de Agricultura questionando sobre os impactos causados pelos pesticidas.

Mesmo que Carson tivesse reconhecido a importância dos pesticidas no seu livro, havia uma forte resistência das outras partes em reconhecer os danos causados, seja pela indústria que desenvolveu os produtos, seja pelo governo pela forma que estimulava o uso deles. A indústria e o Depto. de Agricultura tinham certeza que tudo o que foi feito foi buscando o bem maior. Mas a pressão pública sobre o assunto levou a uma revisão da legislação federal para uso de pesticidas.

A indústria química não quis deixar barato e preparou uma grande ofensiva. Panfletos eram distribuídos por toda parte falando dos benefícios dos pesticidas, até criaram uma paródia do 1ª capítulo de Primavera Silenciosa para mostrar que num mundo sem pesticidas haveria mortes por malária e fome por falta de alimentos. A indústria queria que todos acreditassem que dar ouvidos à Carson seria o fim de todo o progresso humano.

Não faltaram ataques pessoais a Carson salpicados com machismo. Queriam que ela fosse tachada de emocional e não-científica. Os ataques pessoais tinham o seguinte tom: “Como seria possível uma mulher saber mais do que os químicos?”, já que em grande parte o corpo científico era formado e representado por homens. Carson em nenhum ponto defendeu o banimento completo dos pesticidas, mas toda essa campanha tentava criar falsas polêmicas para evitar a discussão necessária. Já queriam cancelar ela antes disso virar moda. Por mais que a campanha contrária ao livro de Carson fosse tão barulhenta, ainda havia vários cientistas que apoiavam seu conteúdo. 

Quando publicado, em junho de 1962, Primavera Silenciosa vendeu que nem pão quente. Em duas semanas as livrarias esgotaram as 65 mil cópias disponíveis. Um sucesso inquestionável. Em paralelo ao êxito do livro, o câncer de Carson havia se espalhado mais pelo seu corpo e ela novamente se submeteu a radioterapia. Devido a sua condição de saúde, Carson permitiu apenas duas entrevistas com câmeras. Ela usou uma peruca para esconder a perda de cabelos pelos efeitos da radiação. Carson estava disposta a fazer todo o esforço possível para que sua mensagem fosse ouvida.

A indústria tentou de várias formas impedir a divulgação de uma das entrevistas pela televisão, mas ela foi ao ar mesmo assim. O programa televisivo atingiu um público muito maior que o livro e apresentou uma Rachel Carson calma, centrada e disposta ao diálogo. Uma pessoa que queria mostrar que ainda havia muitas dúvidas sobre o uso de pesticidas que poderiam causar graves danos a longo prazo.

Em pouco tempo o governo norte-americano se dedicou a fazer um levantamento de riscos ambientais incluindo os pesticidas. O relatório chegou à mesma conclusão que a de Carson, de que o uso de pesticidas precisava ser regulamentado. Após a publicação do relatório, mesmo sofrendo com a dor causada pelos seus problemas de saúde, Carson ainda deu entrevistas e participou de uma audiência no congresso onde falou por 40 minutos sobre o assunto de seu livro.

No último verão de Carson em Maine, ela já não tinha forças para ir à praia. As crianças, seu filho Roger e os filhos dos Freeman, iam até a linha d’água para pegar seres marinhos, levavam até Carson para que ela contasse histórias sobre eles, em seguida ela pedia que as crianças os devolvessem ao mesmo lugar de onde haviam retirado. O câncer continuaria se espalhando pelo corpo de Carson, ela passaria boa parte de seus dias acamada. Apesar de desejar escrever mais, ela teve que se conformar que não seria mais possível continuar seu trabalho literário. Em 14 de abril de 1964, Rachel Carson faleceu aos 56 anos. Parte de suas cinzas foi enterrada junto à sua mãe, outra parte foi lançada por Dorothy no mar, em Maine.

Esse episódio foi inspirado principalmente pelo documentário feito pela PBS sobre a vida e obra de Rachel Carson para a série American Experience: https://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/films/rachel-carson/ .

O que podemos aprender com Rachel Carson?

Ao final de cada perfil quero comentar o que da história dessa pessoa pode contribuir para a nossa luta pela ciência e meio ambiente

Rachel Carson queria ser a biógrafa do Oceano e se tornou defensora de toda a vida selvagem. A importância da Natureza na vida dela foi construída desde a sua infância. Vários estudos mostram que adultos, que quando crianças tiveram algum contato com ambientes não modificados pela ação humana, têm muito mais preocupações ambientais e cuidado com os seres vivos.

Mesmo sonhando em ser escritora desde muito nova, levou décadas para ter sucesso com sua escrita. A persistência dela foi admirável e graças a ela temos essas obras para nos inspirar. Carson mostrou que a combinação de duas paixões também pode dar um bom jogo, especialmente quando você pratica bastante e as domina muito bem.

Seu livro mais famoso, Primavera Silenciosa, foi um incrível trabalho que mudou como lidamos com a Natureza. Ou pelo menos deveria. Ela trouxe a ideia do Princípio da Precaução: que devemos tomar cuidado com aquilo que ainda não sabemos todos os seus efeitos. Ela mostrou também que apesar da Natureza ser resiliente, nossa gana por ter uma vida super confortável pode desequilibrar todo um sistema do qual dependemos.

A lição ainda não foi totalmente compreendida, no momento em escrevia o roteiro desse episódio tínhamos 3064 produtos agrotóxicos permitidos no Brasil, 998 deles aprovados durante a gestão do governo Bolsonaro, um aumento de quase 50% em alguns anos. Apesar da melhora da qualidade dos agrotóxicos, ainda existe uma toxicidade para nossa saúde e para os outros organismos. Num país como o nosso que ainda privilegia o cultivo de monoculturas que serão exportadas ou servirão de alimento para a pecuária, as grandes extensões de aplicação de agrotóxicos impactam os trabalhadores e animais silvestres. Até mesmo os polinizadores, como as abelhas, dos quais a monocultura depende, estão sofrendo com esses contaminantes e sua população está diminuindo muito. Inclusive o combate ao mosquito Aedes aegypti usando o fumacê, pode apenas selecionar os mais resistentes, tornando mais difícil o combate a ele.

Do dia em que escrevi o episódio até hoje, quando estou postando, já aumentou o número de agrotóxicos no Brasil para 3131. No Twitter, o perfil @robotox posta sempre que o governo aprova um agrotóxico novo.

O ponto que mais me impressiona na Rachel Carson é que, mesmo tendo inimigos poderosos, ela sabia que o custo do seu silêncio ou da sua inação teria impactos gravíssimos nesse mundo. Um mundo que ela nem pôde aproveitar plenamente pois passou a maior parte da vida trabalhando e cuidando de seus familiares. Ela usou até sua última força para cuidar da Natureza e mudou a forma como a protegemos. Obrigada Rachel Carson.

Convido você que está ouvindo a pensar sobre os impactos que vemos acontecer e se tem alguma forma que podemos agir para mudar isso.


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Referências

Lear, Linda (1997). Rachel Carson: Witness for Nature. New York: Henry Holt. ISBN 0-8050-3428-5.

Rachel Carson. American Experience, Temporada 29, episódio 3. Public Broadcasting Service (PBS). Televisionada em 24/jan/2017

“Rachel Carson.” Famous Scientists. famousscientists.org. Publicado em 6/dez/2016. Acessado em 20/02/2021 www.famousscientists.org/rachel-carson

“Rachel Carson”. U.S. Fish and Wildlife Service. Atualizado em 23/abril/2014. Acessado em 20/02/2021  https://www.fws.gov/refuge/Rachel_Carson/about/rachelcarson.html

“Rachel Carson”. Wikipedia, edição mais recente 21/fev/2021. https://en.wikipedia.org/wiki/Rachel_Carson

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