Equilibrista

Férias, noite quente, lua cheia, gatos baldios (vadios?) por todo lado. Caminhando acompanhada em direção ao centro pra jantar, a seguinte cena vai surgindo:

– Não machuca ele! Deixe ele em paz! – uma moça pedindo clemência por algo

– Se cair eu como! Não é maldade. Vai virar comida… – responde o moço se justificando

Alguns passos mais pra frente vemos o moço jogando algo que pareciam ser pedras para o alto, em direção às árvores. Imaginei que ele estava tentando derrubar um fruto. Pensei num abacate, mas acho que não é comum na região. Dei risada pensando na discussão de vizinhos por um fruto. Ele, negro, jovem indo pra meia idade, vestido com um uniforme de mototaxi. Ela, branca, meia idade, com uma saída de praia.

– Tadinho! Não machuca ele! – ela chama com preocupação

– Ele é seu por acaso? – retruca o moço

– Não! É da Natureza, mas tá na frente da minha casa!

Mais alguns passos em direção a discussão: um gambá (saruê) se equilibrando nos fios da rede elétrica, há quase 4 metros de altura, parecia ter pelo menos uns 4 kg. Na minha mente, o objeto de disputa foi de fruto pra bicho, mil pensamentos me fulminaram.

“Ele vai comer o gambá? Gente, que gambá enorme! Olha esse bicho se equilibrando nesse fio! Será que tá com filhotes? Não consigo ver. Que legal ela protegendo o gambá. Com o preço da carne até entendo ele querer comer o gambá…”

Passado o choque, a cena não deixou minha mente. Sempre vivi em contexto urbano. Quando comecei a me questionar sobre a origem dos nossos alimentos, fui entender toda a rede “invisível” (ou ignorada) que garante o alimento chegando no mercado, restaurante, casa, escola, etc…

Eu nunca vi o abate de animais de qualquer carne que já consumi (exceto uma vez ou outra o abate de uma galinha pro almoço em fazenda), mas animais foram mortos antes de chegarem num prato. Não sou vegetariana, como carne uma vez por semana ou menos, e mesmo entendendo toda a problemática da produção de carne, eu fiquei mais incomodada com a ideia do moço comer o gambá que estava vivinho na minha frente do que se a moça estivesse comendo um misto quente na hora. Desviando da discussão se comer carne animal é ético ou não, a gente sabe que o impacto de uma indústria pecuária é muito maior, gera muito mais desperdício e consumo de recursos naturais.

Num município de economia voltada para o turismo, me veio a possibilidade da moça ser uma veranista, pensei nisso por ela ser branca, estar de roupas de banho e pela casa dela que me parecia de veraneio também. Já o rapaz, trabalhador no município, tivesse mais envolvimento com o local, talvez sua família fosse de lá ou da região há gerações ou mesmo de um povo tradicional regional, construindo e mantendo a cidade para onde os turistas vem, deixando lixo, esgoto, trânsito em troca de trocados. Qual posicionamento teria mais peso sobre a Natureza daquele local?

No mesmo lugar que a disputa pelo gambá acontecia, havia aos montes gatos vivendo livres nas ruas, talvez alguns ferais. Não quero dizer para que comam os gatos, não! Só que enquanto há uma preocupação com o animal silvestre (super válida), a ação humana que levou e abandonou gatos coloca esse e todos os animais silvestres em risco. Gatos são predadores incríveis e podem até acabar com populações inteiras de animais como pássaros, pequenos mamíferos e répteis. Ações de controle da população de gatos da cidade poderiam salvar muito mais animais silvestres.

No fim, a discussão distraiu o moço e o gambá escapou… talvez por um tempo.

Quem tem fome tem pressa. A lógica mercadológica e urbana joga um distanciamento que nos faz ignorar o quanto destrói e oprime o planeta e seus seres. Seria ótimo que as pessoas não estivessem passando fome enquanto o agronegócio desfloresta e envenena os biomas. Imagino um mundo onde as pessoas possam reconhecer as grandes ameaças ambientais e não criminalizem povos tradicionais. É urgente reconhecer os vieses históricos e coloniais a que somos submetidos.

A cena me perseguiu por dias, ainda me persegue. Basta lembrar dos dias de férias para ver o gambá equilibrista. Se equilibrando na rede ética que cruza a nossa existência, pronta pra nos chocar todos os dias.


Tava terminando o texto e encontrei esse vídeo no twitter, outra gambá equilibrista :

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