A Falsa Paz de Ubatuba

Se você já ouviu falar de Ubatuba/SP, deve ter uma ideia que é um lugar com praias paradisíacas, belas matas e tal. Mas você já ouviu falar do passado escravagista de Ubatuba? Do tráfico ilegal de escravizados? E da relação com a Revolução Haitiana?

Estava lendo a carta do Coletivo Caiçara que veio para Pré-Jornada da Teia dos Povos em São Paulo que aconteceu no fim de Novembro. Lá eles falam sobre a “Paz de Iperoig”, o que foi isso?

Tempos de guerra

Em 1532, assim que os portugueses chegaram para ocupar a capitania de São Vicente e fundaram Cananéia (litoral sul de SP) e São Vicente (na baixada santista). Ambas disputam o título de 1ª cidade brasileira, mas faltam documentos para comprovar a data de fundação de Cananéia.

O Litoral Norte de SP levou mais tempo para ser ocupado pelos portugueses. Havia uma ocupação densa de povos originários e aspectos geográficos da região faziam com que esses povos pudessem se defender mais facilmente de invasões. A ocupação portuguesa só aconteceu por meio de expulsão e extermínio de indígenas. Portugueses também contaram com a aliança junto aos povos Tupiniquins, e começaram a exploração das terras pela extração do pau-brasil, mas levaram cerca de 70 anos até que a resistência indígena fosse vencida e os portugueses tivessem mais controle da região.

Os portugueses criavam emboscadas e enganavam indígenas para escravizá-los e atacá-los. Para enfrentar a invasão portuguesa, entre 1556 e 1564, rolou a Guerra dos Tamoios, que juntou diferentes povos indígenas onde hoje é litoral norte de SP e sul de RJ. A também chamada de “Confederação dos Tamoios”, uniu uma galera que não se dava mto bem, mas tinham um inimigo em comum muito claro. Um dos líderes indígenas nessa confederação era Cunhambebe, da nação Tupinambá. A Confederação teve uma ajuda dos franceses, que querendo passar a perna nos portuga, apoiaram os indígenas com armamentos e naus.

Padres jesuítas como Manoel da Nóbrega e José de Anchieta intermediaram negociações de paz entre portugueses e a Confederação. Com o tempo epidemias debilitaram os indígenas e também jesuítas negociaram um armistício: a Paz de Iperoig. Hoje em dia é feriado em 14/setembro em Ubatuba, em homenagem a esse evento. Na praia de Iperoig, em Ubatuba, tem estátuas representando um indígena e um português fazendo o acordo e um jesuíta (Anchieta?) perto deles.

Praça da Paz em Ubatuba. Há um espelho d'água rodeado por pedras e grama, estátuas representando um indígena e um português fazendo o acordo e um jesuíta (Anchieta?) perto dos dois primeiros
Monumento na praia de Iperoig em Ubatuba

Só que a trégua não foi cumprida pelos portugueses. Logo chegaram reforços lusos e eles, com mais afinco, continuaram dizimando e escravizando indígenas. Tanto que diz a lenda que Cunhambebe jogou uma maldição sobre Ubatuba: o lugar não prosperaria. Em algumas versões: o lugar não prosperaria até pagar o que fizeram aos povos indígenas traídos.

Cunhambebe ilustrado por André Thevet, um cosmógrafo francês que acompanhou a expedição de Nicolas Durand de Villegaignon

Depois vieram os Franceses

A região foi explorada pelos portugueses com extrativismo e monoculturas: madeira, açúcar e, depois, café. Nos momentos de recessão econômica, colonos mais empobrecidos e pessoas negras que fugiram da escravidão, encontraram com os povos originários e dessas relações surgiram os caiçaras.

Enquanto isso, em São Domingos (onde hoje é o Haiti), no Caribe, era uma colônia da França que usava mão de obra negra escravizada para produzir açúcar. Lá os escravizados tinham expectativa de vida de só 3 anos após chegar, de tão maltratados que eram, sempre obrigados a produzir mais riquezas para os colonizadores franceses.

Em 1791 e 1804, aconteceu a Revolução Haitiana, os escravizados se rebelaram e expulsaram seus colonizadores. A Europa não perdoou, e o Haiti ainda tem dívidas criadas por colonizadores. A ideia era impedir q outras colônias se inspirassem na revolução.

Senhores de engenhos fugidos do Haiti, buscaram refúgio, também, em Ubatuba. Investiram em açúcar e cultivos de café, criaram um engenho-escola onde passavam ensinamentos de suas técnicas de clareamento do açúcar e também viraram sócios de traficantes de escravos. Esse engenho-escola fica onde hoje são as Ruínas na Lagoinha, na parte sul de Ubatuba, era frequentado pelos filhos de donos de engenho para se aprimorarem.

Ubatuba foi umas das primeiras produtoras de café e tinha pretensões de ser uma grande cidade portuária. Chegou a se tornar uma das cidades mais ricas da região até o esgotamento do ciclo do café na região.

Em 1831, sai a 1ª lei proibindo o tráfico negreiro no Brasil: qq pessoa escravizada que chegasse à costa brasileira seria uma pessoa livre e os traficantes seriam acusados de crime de pirataria. A lei saiu por pressão da Inglaterra como uma contrapartida para o reconhecimento da independência do Brasil, e foi só pra “inglês ver” mesmo…

Nesse período as monocultura de café se intensificaram no Vale do Paraíba, a necessidade de mão de obra aumentava. Pela localização, Ubatuba e região se tornaram um ponto estratégico para receber escravizados do tráfico ilegal.

A pesquisadora Luciana Alves “identificou 20 possíveis pontos de desembarques [ilegais de escravizados]: onze em Ubatuba, dois em Caraguatatuba, quatro em São Sebastião e três no município de Ilhabela.”

A partir de 1860, com fim da produtividade do café em Ubatuba, por desgaste do solo, pela competição com a produção do Vale do Paraíba e por conta da expansão de infraestruturas de escoamento de produção direcionando os produtos para Santos, a cidade se empobreceu. Fazendeiros abandonaram suas terras e aqueles que lá trabalharam, em grande parte africanos escravizados, se mantiveram por meio de roças de subsistência, para manutenção do modo de vida e não com objetivo comercial.

Depois da destruição, mais destruição

A região ficou a margem do desenvolvimento econômico que acontecia no Vale do Paraíba, e nas capitais São Paulo e Rio de Janeiro. Com a construção da rodovia Rio-Santos, a região da Costa Verde (litoral norte de SP e litoral sul de RJ) se tornou uma grande riqueza para a exploração imobiliária, que pagaram misérias para comprar terras caiçaras para construir casas de luxo.

Enquanto isso, a população tradicional deixa de ter acesso a sua terra para fazer roça, as praias para pescar (além do desequilíbrio ecológico ter acabado com o estoque pesqueiro) e as poucas comunidades ainda sofrem com diferentes pressões.

Hoje em dia temos pelo menos 4 quilombos reconhecidos em Ubatuba: Caçandoca, Fazenda Picinguaba, Camburi e Sertão do Itamambuca. Alguns tem atividades de turismo de base comunitária e contam sua história para turistas que queiram conhecer.

Infelizmente, o município ainda investe muito no turismo de massificado, que deixa pra trás um rastro de lixo, esgoto, trânsito e violência. Há também a especulação imobiliária e construtoras que querem remover caiçaras e populações tradicionais para construir resorts de luxo.

Ler a carta do coletivo caiçara sobre a pré-jornada fez com que todas essas lembranças das minhas leituras e conversas sobre Ubatuba invadissem minha mente. Apesar de ter mto carinho pelo local, me revolta essas discussões serem ignoradas.

Ubatuba talvez seja só uma pequena amostra do Brasil, devem haver milhares de lugares no país com histórias similares, mas chamar de paraíso é ignorar o sofrimento histórico e atual que os povos passam lá. E como a lenda da Maldição de Cunhambebe, acredito que o Brasil só prosperará verdadeiramente, quando repararmos os povos originários e africanos escravizados, que até hoje lutam pela garantia de seus direitos básicos.

E assim como os Tamoyos se uniram apesar de suas tretas para combater os portugueses, é urgente que nós nos articulemos para combater a destruição atual de nós e da Natureza, apenas para o lucro de poucos.

Não sou historiadora, nem especialista na área, fique à vontade para compartilhar reflexões e referências sobre o assunto se encontrar algum erro.

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Referências

IPEROIG, UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA – Câmara de Ubatuba https://camaraubatuba.sp.gov.br/site/noticias/iperoig-uma-historia-de-resistencia/

Escravos planejavam rebelião no Natal de 1831- Informar Ubatuba – 17 DE MAIO DE 2017 http://informarubatuba.com.br/escravos-planejavam-rebeliao-no-natal-de-1831/

A Diáspora Africana no litoral Norte paulista: desafios e possibilidades de uma abordagem arqueológica – Luciana Bozzo Alves – 2017 https://teses.usp.br/teses/disponiveis/71/71131/tde-24052017-073418/pt-br.php

Litoral norte de São Paulo foi palco para chegada ilegal de escravos – AUN USP – 2019 http://aun.webhostusp.sti.usp.br/index.php/2019/08/06/litoral-norte-de-sao-paulo-foi-palco-para-chegada-ilegal-de-escravos/

Os barões piratas que vendiam gente – Informar Ubatuba – 2017 http://informarubatuba.com.br/os-baroes-piratas-que-vendiam-gente/

Escravos planejavam rebelião no Natal de 1831 – Informar Ubatuba – 2017 – http://informarubatuba.com.br/escravos-planejavam-rebeliao-no-natal-de-1831/

Tráfico de escravos e corrupção no império – Ruínas da Lagoinha, Ubatuba – SP – Informar Ubatuba – 2018 https://www.youtube.com/watch?v=qeAaWCLAFD4

Breve história econômica do Litoral Norte — SP. Eduardo Ueda – 2020 – https://medium.com/terramares/breve-hist%C3%B3ria-econ%C3%B4mica-do-litoral-norte-sp-96b172c4851f

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